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Página 1 de 9 Quinze anos após o fim da Guerra Fria, mobilizações importantes e criativas, que se articulam em torno dos Fóruns Sociais, sugerem que o continente pode não estar condenado aos golpes de Estado, "democracias FMI", emigração e miséria
A África sonha com a "segunda independência"
Anne-Cécile Robert
Se as mudanças que ocorrem na África, freqüentemente sob formas dramáticas (movimentos sociais, golpes de Estado, guerras, epidemias, miséria, etc.), dão a impressão de um grande caos, as coisas nesta região não são menos compreensíveis do que em outros lugares. As simplicações midiáticas e os preconceitos depreciativos são, geralmente, o que cria a "insolúvel complexidade" do continente. Durante os dez anos cruciais entre 1989-1999, a maior parte dos modelos políticos e econômicos que estruturavam o continente foram repensados. O fim do confronto Leste-Oeste pôs fim aos conflitos atiçados do exterior, como em Angola ou Moçambique. Os regimes cripto-comunistas desapareceram ou se converteram em economias de mercado (Benin, Etiópia, por exemplo). O desmonte do apartheid, na África do Sul, selou o fim simbólico dos regimes coloniais. O pluripartidarismo difundiu-se da República Democrática do Congo (RDC) até Cabo Verde, passando pelo Quênia e a África Central... Essas mudanças podem ser encaradas de duas maneiras. Por um lado, as tensões de todo tipo que as transformações sempre provocam. O continente dá exemplos delas todos os dias. Do outro lado, há o espaço político e social, a margem de manobra que se abre com o repensar de todo o status quo. Ou seja: cada drama ou perigo carrega também uma esperança ou a possibilidade de uma mudança positiva. É assim com golpes de Estado, que servem às vezes para reconduzir à democracia — como em Mali em 1991, quando os militares derrubaram o ditador Mussa Traoré antes de devolver o poder aos civis. Os rebeldes da Mauritânia tiveram a mesma intenção, em 2005. Três linhas de fratura permitem observar essas ambivalências. A princípio, as terapias neoliberais e seu fracasso, na maioria dos países, destruíram o contrato social vindo das independências. A África subsaariana é a única parte do mundo em desenvolvimento em que a expectativa de vida recuou para o nível registrado no início da década de 1970, e continua abaixo dos 50 anos).
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